sábado, 19 de novembro de 2016

Indignados

A Coca-Cola (pobrezinha) está muito indignada por causa do acréscimo do chamado imposto dos refrigerantes. Confesso que nem percebo bem a mensagem publicitária. O que é que pretendem? Que as pessoas deixem de comprar Coca-Cola (pobrezinha) para não contribuírem para o OE?

Convém explicar à Coca-Cola (pobrezinha) que o produto que comercializa é uma das maiores pragas no consumo alimentar das últimas décadas e que antes de reclamarem, mais vale que ponham os olhos nos pacotes de tabaco e que agradeçam o facto de ainda ninguém lhes ter mexido no design do rótulo.

52% é melhor do que nada, que é o que levam cá de casa. Pobrezinhos.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Visto daqui

É verdade que não percebo nada de teoria política,  apenas observo a natureza humana. E daqui, de onde eu vejo, os votos em Clinton tiveram três motivações e nenhuma delas era "porque ela merece":
a) porque são militantemente do partido democrata;
b) porque ela era mulher;
c) porque odiavam mais o adversário.

Sim, nao sejamos ingénuos, o trunfo de eleger a primeira mulher foi jogado à exaustão e para ela foi sempre uma vantagem, não um obstáculo. Vivemos a era do politicamente correcto,  convém não esquecer.  

Como se viu, não foi suficiente para vencer os militantemente republicanos e os que estão saturados do sistema e só querem que a bolha rebente, não importa como.

Se o  sistema tivesse prestado atenção à natureza humana,  ontem Obama teria recebido Bernie Sanders na Casa Branca.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nem fazendo-lhes o desenho...


Foram precisos 16 anos mas a profecia cumpriu-se – Donald Trump chegou à presidência dos Estados Unidos. Bom, no episódio da série Os Simpsons, “clássico” indiscutível da Fox, o multimilionário já não está na Casa Branca, mas esteve.

Foi a 19 de Março de 2000 que o episódio a que os argumentistas chamaram Bart to the Future pôs o jovem Bart a imaginar-se uns anos mais à frente, já adulto, de camisa havaiana, chinelos nos pés e rabo de cavalo, quando a sua irmã Lisa é Presidente dos EUA. É precisamente ela que se refere ao homem que agora acaba de ser eleito, numa cena na sala oval: “Herdámos uma grave crise orçamental do Presidente Trump”. E para que não restem dúvidas, um assessor mostra-lhe, através de um gráfico, em que estado o empresário deixou o país – “falido”.


Dan Greaney, que escreveu este episódio, veio agora dizer, durante a campanha, às revistas The Hollywood Reporter e Variety, que criar um cenário em que Donald Trump tinha sido Presidente lhe pareceu “consistente com uma visão da América a enlouquecer” – “[Trump na Casa Branca] era a última paragem lógica antes [de a América] bater no fundo.”

Os autores da série queriam que Lisa, que nesse episódio é "a primeira mulher heterossexual" a liderar o país, se visse confrontada com uma situação catastrófica: “Precisávamos que tivesse todos os problemas antes de chegar lá, que nada pudesse ter corrido pior, e foi por isso mesmo que pusemos Trump na Presidência antes de Lisa”, explicou Greaney. A ideia era “alertar a América”.
Retirado daqui.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Foi assim que aconteceu

Perguntaram-me o que queria no Natal, disse que queria livros. Devia ter aí uns 7 anos, estava na segunda classe. Fui à livraria da D. Purita. Escolhi, escolhi, escolhi. Cabeça inclinada para o lado, num posição à qual me haveria de habituar ao longo da vida.

Acabei por me decidir por este "Porquê?" e mais um ou dois livros de histórias, creio que da Anita. Passei horas a folhear este livro, observava os desenhos tentando tirar deles os pormenores que o texto, necessariamente breve, insistia em omitir. Quando me perguntam como comecei a ler, vejo-me em frente à estante, na loja da D. Purita, a escolher este livro e mais do que isso, a assumir a minha escolha, quando havia tantas "histórias mais bonitas".


Chegou-me agora às mãos uma 16ª edição, de 1990, que andava perdida entre o exército de livros que espera catalogação. Olho para ele, olho para a minha vida, eternamente insatisfeita com as respostas estabelecidas, eternamente à procura do porquê das coisas, eternamente a fugir do "é assim porque sempre foi assim e porque é assim que toda a gente faz".

Não podia ter feito outra escolha, pois não?


Bem-vindos à era do absurdo

Todos o consideraram demasiado louco para poder ser eleito.  Todos consideraram um absurdo impossível a hipótese de ele se tornar presidente. E perante a arrogância das certezas absolutas e a indiferença pela raiva surda das classes mais desfavorecidas e profundamente ignorantes (os EUA são demasiado egocêntricos para perderem tempo a estudar a história do mundo e das civilizações), ele foi vencendo etapa após etapa até chegar aqui.

Muitas vezes me perguntei como era possível que um louco como Hitler tivesse conseguido chegar ao poder.  Hoje, no dia em que passam 27 anos sobre a queda do muro de Berlim, acabei de testemunhar em directo como tudo aconteceu, apesar das certezas inabaláveis de comentadores, politólogos, jornalistas, políticos e toda uma imensa massa de gente que tem como função vender opinião em vez de dar informação.

Agora todos vão tentar analisar e compreender como foi possível que isto acontecesse. Infelizmente, para os EUA e para o mundo, já vão demasiado tarde.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Para memória futura, 02

Repescado de há um ano, nos dias agitados do nascimento da geringonça:

"Dogma é uma crença ou doutrina estabelecida de uma religião, ideologia ou qualquer tipo de organização, considerada um ponto fundamental e indiscutível de uma crença." (Wikipedia)

Como por exemplo o dogma que por aí vai relativamente às pessoas de esquerda e à sua alegada incapacidade de pensar de forma livre e independente.

Eu não duvido que na direita haja pessoas sérias, honestas, trabalhadoras, inteligentes e livres. Conheço e admiro umas quantas. Deve ser porque o chip que me implantaram atrás da orelha trazia essa configuração de série. Infelizmente, o chip dos livres pensadores de direita tem um software mais fraquinho. Como não dispõem de um componente chamado respeito por opiniões diferentes, instalaram uma dose extra de dogma. Agora andam à nora...

Até o meu gps reage melhor quando eu me perco. Mal dá pela diferença relativamente ao planeado, começa logo a dizer: Recalculando...

domingo, 6 de novembro de 2016

Ups!


“Um visitante decide tocar na estátua derrubando-a sob o olhar incrédulo dos demais. Isto aconteceu hoje no Museu Nacional Arte Antiga” (ver aqui).

sábado, 5 de novembro de 2016

A minha estreia no Instagram

Está  certo, está tudo um bocadinho inclinado, mas era a perspectiva mais gira... E confirma-se, só falo de bibliotecas.

BPE, Sábado de manhã

BPE, Sábado de manhã

BPE, Sábado de manhã

Para memória futura

A contabilidade dos gostos no Facebook é uma tentação a que poucos conseguem resistir. No meu caso, o Facebook é um instrumento de divulgação da Biblioteca Pública em geral e da (minha) Biblioteca de Évora em particular. Os "gostos" são, por isso, pouco relevantes. O que me interessa é que a mensagem vá passando e crie raízes no pensamento das pessoas.

Sei que várias pessoas deixaram de me seguir porque "eu só falo de bibliotecas", mas isso não me incomoda por aí além. Eu também deixei de seguir várias pessoas, essencialmente porque não me interessa saber tudo o que querem contar-nos sobre as suas vidas: onde estão, o que comem, o que compram... Em contrapartida, sigo várias pessoas que não conheço pessoalmente (e a quem, por essa razão, não tenho a lata de pedir amizade) porque têm opiniões que gosto de conhecer, trazem novas perspectivas a assuntos que a minha cabeça já catalogou e arrumou, porque me fazem questionar as certezas absolutas, porque são fontes de informação, porque trazem algo novo.

Mesmo consciente de tudo isto, há silêncios ensurdecedores e há comentários infelizes, que me fazem questionar o tempo que vivemos em conjunto, a amizade ou pelo menos, a camaradagem e o respeito que pensava existirem. 


Ao contrário do que parece evidente, não me parece que tenha sido eu a iludida. Verifico que a ilusão foi dos outros, dos que não aceitam que eu seja diferente da pessoa que projectaram em mim: apenas mais uma ovelha dócil no rebanho, apenas mais uma vontade facilmente convertida ao que é supostamente "melhor para os meus (seus) interesses" ou, pior ainda, alguém que apenas existe enquanto concorda connosco e nos é útil.


Compreendo. Fora destes parâmetros todos a minha existência e persistência é imperdoável. Eu também não desculpava.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Conferências do Cenáculo

O que escondem os biombos? A história da relação Portugal - Japão nos séculos XVI e XVII através dos biombos japoneses | Alexandra Curvelo




terça-feira, 1 de novembro de 2016

As Marcas da Inquisição: 480 anos da Inquisição de Évora





No ano em que se assinalam os 480 anos da instalação do Tribunal do Santo Ofício em Portugal, o CIDEHUS, a Biblioteca Pública de Évora, o Museu de Évora, a Fundação Eugénio de Almeida e a Câmara Municipal de Évora, organizam uma exposição que pretende dar a conhecer alguns dos tesouros guardados no Museu e na Biblioteca. Estes objectos permitem fazer a História de uma das instituições mais marcantes da sociedade portuguesa entre os séculos XVI a XVIII.

A reportagem da RTP sobre esta exposição pode ser vista aqui (minuto 5:40 da segunda parte: http://www.rtp.pt/p…/p2225/e257159/portugal-em-direto/533839

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Conferências do Cenáculo

Reencenar o espaço urbano: as ruínas fingidas do Jardim Público de Évora | José de Monterroso Teixeira


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A 16 anos do ano 2000


http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/21901/nao-sou-uma-funcionaria-sou-uma-colaboradora

Diz um comentário ao artigo que "parece um capítulo de 1984".

Cada vez mais perto, não duvidem, especialmente porque continuamos ansiosos por contar nas redes sociais o que almoçámos, jantámos e bebemos, onde estamos e com quem, o que comprámos e o que temos. Deixamos que os nossos telemóveis e outros gadgets registem permanentemente a nossa localização e que fotografem/filmem a nossa rua e, por que não, a nossa sala de estar, a cozinha ou a casa de banho. Afirmamo-nos assim, no circuito da internet e deixamos que nos retirem todo o valor intrínseco, que nos roubem a identidade, que nos esmaguem a personalidade. Anulamos os nossos gostos para alinharmos no politicamente correcto, deixámos de comer e de saborear porque há um estudo recente que diz uma treta qualquer e já nada é saudável. 

Até poderia dizer que já só faltam os 2 minutos de ódio diários, mas depois lembrei-me dos comícios do Trump e sou obrigada a reconhecer: já não falta nada.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Parabéns Rede de Bibliotecas Escolares!

A Rede de Bibliotecas Escolares completa 20 anos em 2016. Para celebrar a data, a própria Rede organiza hoje um importante Fórum na Fundação Calouste Gulbenkian, que - além do seu valor intrínseco - é o culminar de um ano de iniciativas descentralizadas mas agregadoras em torno desta efeméride.

Em minha opinião, a RBE aprendeu muito com a Rede de Bibliotecas Públicas. Implementou instrumentos descentralizados de verificação e avaliação permanentes, manteve sempre um princípio de orientação estratégica fundamental para que bibliotecas grandes e pequenas, do interior ou do litoral, do norte ou do sul, constituíssem um corpo coerente, consistente e sempre em movimento. Insistiu no trabalho colaborativo e em rede, premiou mérito, incentivou inovação. Hoje celebra esses resultados.

É claro que, como aconteceu com as bibliotecas públicas, o mais difícil está para vir. Agora é preciso prosseguir o caminho, mas para onde? Que metas se desenham, que estratégias são necessárias? É agora que a homogeneidade desejada e promovida terá que dar provas da sua consistência. Os primeiros sinais de desequilíbrio começam a manifestar-se: bibliotecas dinâmicas, verdadeiros motores de inovação nas suas escolas convivem (às vezes na mesma rede) com bibliotecas apáticas, verdadeiros depósitos de livros, onde ainda não se pode fazer barulho, onde os alunos só podem entrar no intervalo, ou que só abrem 2 dias por semana ou 2 horas por dia. O desafio é agora, sobretudo para as bibliotecas dinâmicas, que não podem parar à espera que as outras façam o seu caminho, nem podem distanciar-se de forma irreparável. Como resolver este problema, se todos os seminários, encontros, colóquios e formação contínua que a RBE promove continuamente para combater este desvio parecem insuficientes?

Para já, ocorre-me a possibilidade de um sistema de mobilidade. Há que aproveitar o facto de a entidade patronal ser a mesma para todos os professores bibliotecários. A troca de experiências e a interoperabilidade precisam de ultrapassar o patamar dos relatórios, fáceis de embelezar por natureza.

Depois, é necessário que a integração dos professores bibliotecários e das bibliotecas escolares no processo de construção do projecto educativo seja efectiva e não apenas o cumprimento de um requisito, quando a evidência das circulares enviadas pelo Ministério já não pode ser ignorada. Da mesma forma, a biblioteca escolar tem que ser efectivamente valorizada pelo corpo docente das escolas como um recurso de aprendizagem valioso, activo e dinâmico e nunca, mesmo nunca, ser o local para onde os alunos vão passar o tempo quando estão de castigo.

Espero que os colegas das bibliotecas escolares não interpretem mal esta brevíssima reflexão e é imprescindível que sublinhe que sou um mero agente externo à biblioteca escolar, que fala apenas do que vê do ponto de vista do bibliotecário público. Mas já vi este caminho ser percorrido e detestaria que a RBE, cujo percurso tem sido brilhante, cometesse erros que podem ser evitados.

No próximo ano*, também a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas comemora um número redondo: passam 30 anos sobre a publicação do decreto-lei que a criou e que estabeleceu os princípios para a sua implementação. Mas aqui, está tudo bem.


*O que se comemora em 2016 é o despacho para a criação do Grupo de Trabalho que realizou o diagnóstico sobre a situação das bibliotecas em Portugal e que apresentou o plano estratégico para a implementação da Rede.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

500 anos depois


A celebrar 500 anos sobre o dia exacto em que o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende foi publicado - 28 de Setembro de 1516 - a Biblioteca Pública de Évora inicia as Conferências do Cenáculo 2016 com a conferência do Professor João Alves Dias sobre esta obra fundamental do Renascimento português.

Às 18h00 será inaugurada uma mostra bibliográfica que inclui a primeira edição do Cancioneiro e várias outras obras que, de uma ou outra forma, com ele se relacionam.

Contamos consigo!

A minha visão da situação actual das bibliotecas públicas em Portugal

Zélia Parreira @ O Lugar da Cultura from O Lugar da Cultura on Vimeo.

Intervenção n'O lugar da Cultura. Centro Cultural de Belém, Abril de 2015.

sábado, 30 de julho de 2016

Intervalo

São muitos dias acumulados, muitas semanas a um ritmo imparável. Um cansaço que toma conta de todos os centímetros do nosso organismo, agravado por um calor que nunca dá tréguas. Esperam-se as férias, contam-se os dias até chegar aqui, à hora em que vamos fechar a porta e ter, por fim, uns dias de descanso.

E é por isso que não se compreende este nó na garganta, este aperto de saudades dos dias que não vamos viver aqui, das rotinas que não vamos cumprir, dos leitores que não vamos atender, dos livros que não vamos emprestar.

Boas férias. Voltamos a fazer Biblioteca no dia 16 de Agosto.


domingo, 24 de julho de 2016

E às bibliotecas disse nada...

...mas pelo menos manifesta a sua admiração pelo Director Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas e deve um reconhecimento à Biblioteca Nacional pelo extraordinário esforço que tem feito.  Pois deve.

A entrevista ao Ministro da Cultura para ler aqui.

sábado, 23 de julho de 2016

Aeroporto Cristiano Ronaldo

Duas notas muito rápidas:

a) CR7 é a "instituição" portuguesa mais conhecida no mundo inteiro.  Não há pessoa, lugar, objecto ou produto de origem portuguesa que tenha mais notoriedade do que ele. Não há sítio no mundo onde não se saiba quem ele é.  Trata-se de uma estratégia publicitária brilhante para o turismo da Madeira, a custo zero.

b) Avenidas e ruas com o nome do Eusébio são do melhor que há, já para não falar na usurpação de um lugar no panteão. E ai de quem discorde...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pode ser um Solero... vá.

A brigada da dieta atacou outra vez, mesmo ali onde dói, na consciência. Oh, meus ricos magnuns de amêndoas saboreados com tanto deleite... Aqui têm, não hei-de ficar a remoer-me sozinha. Vejam e comecem já a sentir-se culpados!

(Isto do sentimento de culpa não engordará?)


domingo, 3 de julho de 2016

O nascimento de uma leitora

Conheci-as num sábado de manhã, não há muito tempo. A mãe perguntou se podia requisitar livros, durante quanto tempo, etc. Inscreveu-se. Perguntei se não queria inscrever a menina, disse que não, bastava ela. Ao princípio levava poucos livros, porque depois não tinha tempo de os ler. Um livro para ela, dois ou três para a filha.

Revejo-as todos os sábados. Continua a levar um livro para ela, mas já leva nove livros para a filha. Às vezes trazem os livros da sala de leitura, mas quando chegam à portaria a menina escolhe mais um ou dois e ficam a decidir qual é o que não vai.

Ontem disse-me, orgulhosa, que a filha adora ouvir histórias e que quando quer que ela se porte bem, ameaça não ler a história à noite. A leitura antes de dormir tornou-se um hábito e o momento que a filha não quer perder por nada. E a Biblioteca está lá.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Um agradecimento há muito devido

Voltei há dias, por outras razões, ao consultório da pediatra dos meus filhos. Enquanto esperava pela Dra. Cristina Miranda, lembrei-me de tantas horas ali passadas. Tanta ansiedade com os problemas de ouvidos e cirurgias da Inês, tanto medo no primeiro exame da Mariana, depois de um parto tão difícil, tanta angústia nos primeiros meses do Pedro, enfraquecido por um refluxo que não o deixava alimentar-se.

Dito assim, parece tudo muito dramático e quando me lembro, pergunto-me como foi possível que os dias passassem ligeiros. Três filhos, três vidas, três ritmos de alimentação, de sono, de fraldas, três histórias de febres, de otites, três sequências de vacinas, de consultas, de exames de rastreio...

Mas tudo foi tranquilo, porque do outro lado da mesa, do outro lado do telefone, havia uma pessoa chamada Maria Cristina Miranda. Sempre calma, mas de uma precisão e rigor inigualáveis. Com ela houve sempre uma confiança total e absoluta e, como vim a perceber na pior fase da minha vida, uma generosidade e disponibilidade muito raras nos dias de hoje.

Nada sei sobre a sua vida privada, nem sobre os seus gostos ou hobbies. Nada sei sobre os problemas que a preocupam ou que partidas a vida já lhe pregou. Ela sabe dos meus, porque ali encontrei um apoio inestimável, um porto de abrigo, alguém com quem partilhei a mais nobre missão que me foi confiada: criar os meus filhos. Cuidou deles comigo, deu-me ferramentas e estratégias, ânimo e coragem.

Obrigada por tudo.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Inês, 22



Para a que vive a vida com a alegria do Verão.
Para a que sacode os problemas como sacode o cabelo.
Para a que enfrenta o mundo com a confiança de que tudo se vai resolver.
Para a menina que me fez mãe e que nunca deixará de ser a menina linda, linda que conheci há exactamente 22 anos.

Parabéns!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Distracções planeadas.

De todas as pragas que o Facebook nos trouxe, o narcisismo avassalador é capaz de ser uma das piores.

Pessoas aparentemente equilibradas e racionais a tirarem dezenas de fotografias a si próprias,  em poses supostamente distraídas,  apanhadas desprevenidas pelo clique do seu próprio dedo no seu muito pessoal e intransmissível telemóvel.

domingo, 5 de junho de 2016

Pesos e medidas




(Foto de Tiago Mota Saraiva)

Quando o jornalista lhe relembra que as únicas turmas que vão ser encerradas – aliás, que não vão abrir com financiamento do Estado – são as de zonas onde o serviço público satisfaz as necessidades de ensino, o professor manifestante pede-lhe a identificação, duvidando que seja jornalista. Esperava ser levado ao colo, não esperava ser confrontado com o óbvio.

Quero acreditar que este detalhe demonstra uma viragem decisiva na opinião pública, traduzida nos comentários que vários jornalistas e comentadores fizeram em seguida. Ao contrário dos primeiros dias, em que o movimento dos amarelos foi levado ao colo pela comunicação social, a imprensa parece mudar a sua postura e a partir daqui, parece-me que o caminho amarelo será descendente.

Para isso contribuiu – e muito – a infeliz “manifestação” de hoje. Eram só 50 mas, graças ao local e ao momento, tiveram muito mais destaque do que muitas manifestações de mais de 50 milhares em que participei. Estive presente em luta por muitos direitos: desde logo o direito ao trabalho que permita a todos os cidadãos o sustento das suas famílias, o direito a cuidados de saúde para todos, o direito à indignação pela sangria imposta às famílias para salvar bancos vítimas de corruptos, o direito à cultura e a tudo o que ela representa – identidade, património, história, conhecimento, livre expressão – e sim, o direito à escola pública.

Nunca, nas manifestações dessa esquerda tão mal amada, vi o que vi hoje, nas mãos dos senhores professores dos colégios privados. Além das ofensas óbvias, vistas e revistas nas televisões e nas redes sociais, o que hoje estava patente era o mais absoluto desprezo pela opinião dos outros, pela convicção dos outros, pelo voto dos outros. 

A esquerda, que reuniu o consenso que permitiu ao PS formar governo, obteve votos. Obteve os votos necessários para que esse consenso fosse mais forte do que o consenso da direita. A CDU e o BE mereceram milhares e milhares de votos que lhes permitiram eleger o número de deputados suficiente para terem uma palavra a dizer. Infelizmente, para estes senhores e outros eternos inconformados que por aí andam, um voto num partido de esquerda não pode ter o mesmo peso nem merecer o mesmo respeito que um voto num partido de direita. Em sua opinião, votar no que eles chamam extrema-esquerda até devia ser considerado crime. Ora esta esquerda tem tanto de extrema como o CDS tem de extrema-direita. Esses votos também devem ser criminalizados? 

Se os colégios deixam de ser viáveis sem o financiamento do Estado, é porque essas são as regras do todo-poderoso mercado. É assim que funciona o mundo da iniciativa privada. Caso contrário, o Estado tinha que injectar dinheiro em todas as empresas que passam dificuldades no país.

Se as escolas privadas têm melhores condições que as públicas, é exactamente por isso que o dinheiro do Estado tem de ser canalizado para a escola pública, para a dotar de melhores condições, ao alcance de todos.

Atirar para os olhos dos portugueses com o “maior despedimento colectivo da história” só pode ser uma anedota infeliz, quando todos ainda nos lembramos dos mais de 30 mil professores que a educação de Crato entregou ao desemprego. Já para não falar na enorme janela de oportunidade que isto representará nas suas vidas, como tão bem aconselhou Passos Coelho aos desempregados quando era primeiro-ministro. 

E falar no colégio privado das filhas da Secretária de Estado é um tiro no pé, porque para a educação das meninas, os meus impostos não contribuíram. Foi ela pagou as propinas.

Sobre as palavras de ordem de baixo-nível, nem me vou pronunciar. Mas confesso que não queria os meus filhos ensinados por estes senhores. Livra!

domingo, 15 de maio de 2016

Antes do último jogo



Obrigada Sporting,  por tudo. Pela época, pelos cânticos,  pelas lágrimas, pelos abraços, pelos saltos, pelos gritos, pelos golos. Obrigada dirigentes, treinador, jogadores. Obrigada Adrien e Rui Patrício, capitães das nossas almas.

Obrigada Sportinguistas. Amanhã continuamos.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

+ Biblioteca, mais perto de si!


Rede de Leitura Pública de Évora 

1.    Bibliomóvel Loja dos Sonhos
2.    Pólo de Valverde
3.    Pólo de Guadalupe
4.    Pólo do Tribunal da Relação de Évora
5.    Pólo do Bacelo
6.    Pólo da Senhora da Saúde
7.    Pólo da Horta das Figueiras
8.    Núcleo da Biblioteca Escolar da ES Severim de Faria
9.    Núcleo da Biblioteca Escolar da EB Santa Clara
10.  Núcleo da Biblioteca Escolar da EB Conde de Vilalva
11.  Núcleo da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Manuel Ferreira Patrício
12.  Pólo de Leitura da Associação É Neste País
13.  Pólo de Leitura da EMBRAER
14.  Pólo de Canaviais (a inaugurar no dia 21 de abril)
15.  Núcleo da Biblioteca Escolar do Colégio Salesianos de Évora
16.  Pólo de Azaruja (a inaugurar em Setembro)

17.  Pólo do Estabelecimento Prisional de Évora

Pólos em preparação: Jardim Público; Vendinha;

domingo, 17 de abril de 2016

Brasil, Abril de 2016

 
 
Por defeito de formação, tendo a pensar de que forma serão descritos nos livros de História, daqui a muitos anos, os acontecimentos de hoje. 
 
O que dirão, no futuro, os livros de História sobre o dia de hoje no Brasil? A muitos anos de distância, longe da emoção de quem vive os acontecimentos, tão distantes da esperança de quem saiu da pobreza extrema nos últimos anos, como da ânsia de poder de quem perdeu nas urnas, que dirão os historiadores?

E como contarão o restabelecimento dos laços entre os brasileiros, agora divididos por um muro, com amizades de uma vida destruídas em público, no palco das redes sociais?

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Declaração de interesses




Sou franca, directa e, por isso, inconveniente. A coisa piora quando o que está em causa é realmente importante para mim. Sou absolutamente insuportável em tudo o que diz respeito aos meus filhos, à Biblioteca, ao Alentejo e ao Sporting (por esta ordem).

Procuro, especialmente nestas coisas que verdadeiramente me importam, ser a maior crítica, para poder corrigir o que está mal, para não ser apanhada na curva, iludida com o aparente sucesso daquilo de que tanto gosto. Foi  por isso que me tornei excepcionalmente exigente em relação aos meus filhos, que penso e pondero tudo o que não está bem nas Bibliotecas (começando pela parte que me diz directamente respeito), que tento todos os dias valorizar o Alentejo e que me farto de rir com as asneiras do Mister JJ.

Percebo que algumas das coisas que digo são incómodas, inconvenientes. Compreendo que, no mundo do politicamente correcto, a crueza das minhas observações não seja bem interpretada. Como não sou de meias palavras, vou directa ao assunto:

Não tenho qualquer ambição de progressão (mais ou menos rápida) no domínio das Bibliotecas. Não estou a mostrar serviço com nenhuma intenção (mais ou menos oculta). Não aspiro a nenhum lugar de topo em nenhuma hierarquia. O sonho da minha vida, como é público, chama-se Biblioteca Pública de Évora, e estou a vivê-lo.

Todos os comentários, todas as críticas, todas as observações que faço sobre Bibliotecas, são com intenção de contribuir para o debate e acordar consciências. Lamento que a uns isso seja considerado como assertividade e a outros seja colado o rótulo de "ela anda atrás de qualquer coisa". Nem desta Biblioteca, pela qual esperei a vida toda, eu andei atrás. Apareceu no meu caminho e eu agarrei a oportunidade com todo o empenho possível.

Às vezes, as coisas são mesmo o que parecem. Não há esquemas nem teorias de conspiração. Aqui só há uma bibliotecária muito apaixonada pelo seu trabalho e muito orgulhosa da sua missão.

Podia, a partir de aqui, andar a lamentar-me pelos cantos sobre injustiça e outras tretas. Não o farei. Até posso, por momentos, ceder à tentação, mas depois vem esta força lá de dentro que me diz "Deixa-te de queixinhas, vai mas é trabalhar!". E eu vou.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Pólo a pólo. Em Abril, voz aos livros!

Até podia escrever aqui quarenta e sete parágrafos sobre o verdadeiro deslumbramento que é trabalhar na Biblioteca Pública de Évora, mas isso, quem aqui vem, já está farto de saber. Por isso hoje quero falar do deslumbramento que é "fazer biblioteca" em Évora. Não, não é bem a mesma coisa. Eu vou explicar:

Fazer Biblioteca em Évora é ter uma reunião com um/a Presidente de Junta de Freguesia e ver um Pólo nascer antes de a reunião terminar. É ter uma conversa com um/a professor/a bibliotecário/a e ver um projecto de colaboração a despontar. É atender um telefonema e desligar com uma nova possibilidade no ar. É falar da importância da envolver a comunidade, de abraçar a cidade e o concelho neste esforço colectivo de fazer acontecer leitura, conhecimento, informação e receber de volta isto que aqui vos deixo.

Évora, de pólo a pólo, a celebrar Abril do livro e das leituras em liberdade.

Pólo A Pólo - Abril, Voz aos Livros | Parte 1, de 2 a 15 de Abril

sábado, 2 de abril de 2016

Pedro, 18


Hoje, o meu filho mais novo faz 18 anos. Sou agora a mãe orgulhosa de três adultos.

Quando vamos na rua, já sou a mais baixa da família, mas cá dentro, onde se guardam as lembranças, as dores e as gargalhadas, continuo a ser  o colo, o amparo, o abrigo e sim, a autoridade que nenhuma maioridade certificada por bilhete de identidade alguma vez me retirou. Cá dentro eles são ainda tão pequeninos e eu continuo - e continuarei - a usar as expressões que eles usavam quando eram do tamanho que ainda têm, aqui dentro.

Hoje, o meu filho mais novo faz 18 anos. É carinhoso (quando ninguém está a ver), bem-humorado e bom companheiro. É teimoso, obstinado e orgulhoso. Amadureceu tanto nos últimos meses, longe de mim... criou asas, está a voar.

Quero que saibas que tenho muito orgulho em ti, filho. E que confio em ti. E que estarei aqui sempre, sempre.

Parabéns!

 

 


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amanhã é Dia Internacional do Livro Infantil

Todos os anos o International Board on Books for Young People (IBBY) divulga uma mensagem para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil, celebrado a 2 de Abril, data do nascimento de um dos mais importantes escritores de livros infantis de sempre, Hans Christian Andersen. De todas as mensagens, a minha preferida é esta, por isso, aqui a deixo outra vez em jeito de celebração.
 
«Que haverá nos livros?»

«Que haverá nos livros? – costumava perguntar a mim mesma, quando tinha três ou quatro anos, sentada no meu banquinho na livraria dos meus avós.

Atrás da caixa, sentava-se a avó. Do outro lado do balcão, a minha mãe esperava os clientes. Por detrás dela, as estantes chegavam até ao tecto e, para se poder alcançar os livros das prateleiras de cima, uma grande escada, suspensa de uma barra de ferro por dois ganchos, deslizava da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Não pensem que me aborrecia! Quando um cliente entrava na loja, eu punha-me a adivinhar irá escolher um livro das estantes inferiores ou interessar-se-á por algum colocado nas de cima?

Jovem, ágil e inteligente, a minha mãe sabia onde se encontrava cada livro, subia a escada se necessário, descia com um livro de capa azul, vermelha ou dourada e colocava-o diante do comprador. Eu sentia-me orgulhosa da minha mãe e cada vez me interessava mais e mais pelo que pudesse existir nos livros. Nas filas de baixo, também os havia de capa azul, vermelha ou dourada, cheios de letras negras, pequeninas, mas nenhum tinha desenhos tão bonitos como os meus!

Em minha casa toda a gente lia. A minha mãe, o meu pai, os meus avós. Ao observar os seus rostos inclinados sobre um livro, ao ver que às vezes sorriam, que outras vezes se punham sérios, e que em certos momentos viravam a página com uma atenção tensa, interrogava-me: Por onde andarão? Se lhes falo, não me ouvem e, quando por fim me prestam atenção, parecem acabados de sair de algum lugar distante. Por que não me levam com eles? Que existe afinal nos livros? Qual é o segredo que não me querem contar?

Mais tarde aprendi a ler. E descobri, enfim, o segredo dos livros. Descobri que neles estava tudo. Não apenas fadas, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas; o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abre um livro! Ele partilhará contigo todos os seus segredos.»

Éva Janikovszky Malasartes

sexta-feira, 25 de março de 2016

Biblioteca Pública de Évora: 211 anos

1805

Na 6ª Feira 8 de Fevereiro, dia de S. João da Mata, se assentou a última estante da nova Livraria.

Na  4ª  Feira  seis  de  Março,  dia  de  santa  Colecta,  e  aniversário  do  Bispo  de Beja,  e  Arcebispo  de  Évora  fui  abrir  em  a  nova  Livraria  os  primeiros  Caixotes  dos livros que vieram de Beja para ela.

Na 3ª feira 19 de Março, S. José, fui assentar no seu lugar por cima da porta da livraria o painel de N. Sra. cópia  do  original  de  Trevisani,  mestre de  Francisco  Vieira  português  antigo,  a qual  cópia  é  feita  pela  Princesa  D.  Maria  Benedicta,  viúva  do  meu  príncipe  D.  José,  a qual ela deu a sua mãe a rainha D. Mariana Vitória, mulher del rei D. José, e por morte deste Senhor mo deu a mim em 1790 quando voltei para Beja.

Na 2ª feira 25 de Março, Anunciação de Nossa Senhora fui por o 1º livro na estante da nova livraria e foi o 1º tomo da polyglota de Ximenes, fui com o vigário geral , capellães e pessoas de família.  (...) Mandei abrir um caixote e o primeiro livro que abri e li foi a Évora Gloriosa, o que me pareceu coisa de reflectir.


Diários de Frei Manuel do Cenáculo
BPE, Cod. CXXIX/1-21

sexta-feira, 11 de março de 2016

#somosbibliotecas há 30 anos



Há 30 anos, no dia de hoje, eu era uma miúda de 16 anos, a frequentar o ensino secundário. A minha música preferida era o “Take my breath away” dos Berlin e as preocupações que me ensombravam os dias eram tão importantes que afinal, se desvaneceram.

Há 30 anos, no fim deste dia, 11 de Março de 1986, fui dormir com a tranquilidade das pessoas irresponsáveis. Mal sabia que nesse dia, algures, num gabinete em Lisboa, uma folha A4 contendo um despacho fora assinada pela então Secretária de Estado da Cultura, Teresa Patrício Gouveia. Essa assinatura, naquela folha A4, teve o poder de mudar a minha vida para sempre.

É claro que só o soube muitos anos mais tarde. Nem mesmo quando o Presidente da Câmara me chamou, em 1993, para me propor o lugar de bibliotecária, que não podia estar vago, no cumprimento do contrato-programa assinado entre o Município e o IPLB, tive essa noção. Na altura, a proposta foi inesperada mas surpreendentemente natural. Naquele instante, não tive dúvidas, era para aquilo que me tinha preparado. Por causa daquele despacho e das consequências que ele foi acumulando, tornei-me visceralmente bibliotecária. Foi graças a ele que a Biblioteca de Moura se formou e me recebeu, e depois dela nasceram os pólos, e fez-se a Feira do Livro, e um dia atrevi-me a sonhar com a Biblioteca Pública de Évora. Por ser Bibliotecária em Évora, esta tornou-se a minha terra e a terra dos meus filhos. E depois de aqui chegar, encontrei o António e esta terra agora também é dele, que nem sequer imaginava que tudo isto seria ditado por um despacho assinado há 30 anos. 

Multipliquem agora esta minha história por todos os que foram tocados por este processo. Graças ao Despacho que criou o Grupo de Trabalho constituído, entre outros, pela Dra. Maria José Moura e pela Dra. Teresa Calçada, a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas foi planeada, pensada e construída. Para a concretização plena deste Rede foram criados Cursos de Formação na área da Biblioteconomia, que geraram trabalho para as Universidades e Escolas e habilitaram centenas de novos profissionais com qualificações específicas para o trabalho das Bibliotecas. Daqui saíram bibliotecários para a leitura púbica, mas também para as universidades, onde, com o seu trabalho, tocam a vida de milhares de estudantes universitários, proporcionando-lhes melhores condições de acesso à informação e ao conhecimento.

Nos Municípios, dezenas de arquitectos e engenheiros desenharam, projectaram e fizeram nascer edifícios de bibliotecas validados pela tutela, através do então Instituto Português do Livro e da Leitura. Do papel à construção, as mãos de pedreiros, carpinteiros, electricistas, canalizadores, pintores ergueram bibliotecas. Ao lado, um novo nicho de mercado nascia, dada a necessidade de equipar as bibliotecas com mobiliário adequado, equipamento informático e software de gestão de bibliotecas.

Da Rede de Leitura Pública à Rede de Bibliotecas Escolares foi um passo, dado pela Dra. Teresa Calçada. Novo impulso de construção e desenvolvimento e o nascimento do Plano Nacional de Leitura. As vidas de milhares de estudantes tocadas pelo trabalho das bibliotecas escolares e dos professores bibliotecários. Até as editoras, que tradicionalmente viam as bibliotecas como concorrência às vendas, receberam um impulso inesperado, resultado da aposta de um país na leitura e no consumo literário. Os escritores são lidos e os ilustradores apreciados. Os contadores de histórias nasceram e levam a palavra a todos os cantos do país.

Todas estas pessoas – e são milhares – viram as suas vidas tocadas por um projecto que fez florir uma primavera de bibliotecas e as transformou em sítios felizes.

É certo, ao verão da maturidade e da consolidação, da partida para novos desafios, ultrapassada que estava a fase de construção, seguiu-se o outono do desânimo, do desinvestimento, do cansaço. Creio que o que nos falta é o rumo, o planeamento. Hoje, como ontem, impõe-se a criação de um novo grupo que pense, avalie e planeie as bibliotecas que queremos ter. E (os meus colegas que me desculpem a insistência) falta garra a muitos bibliotecários. É preciso lutar todos os dias. É preciso Ser Biblioteca todos os dias, todos os minutos. 

Celebremos estes 30 anos em festa, porque é muito o que nos orgulha. Mas que a nossa festa seja também preparar o amanhã (como bons Bibliotecários) e abrir caminho para cumprir o despacho nº 23/86 de 11 de Março, que mudou a minha vida e a vida de tantos bibliotecários que, com o seu trabalho, estão a contribuir para mudar o país.


Notas finais, porque nem seria eu se não dissesse o que me vai na alma:

1. Decorre hoje, no MUDE, em Lisboa, uma celebração destes 30 anos de RNBP. Não estarei presente porque, infelizmente, a Rede faz distinção entre as bibliotecas apoiadas pelo programa e as que não receberam apoio, pelo que a Biblioteca Pública de Évora não está integrada. Esta é a minha forma de protesto.

2. A comemoração é organizada pela Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e decorre num Museu. Lamento que não seja a tutela a comemorar este facto tão importante e que a actividade não decorra numa biblioteca.

3. A BAD é, neste momento, a estrutura que melhor pode catalisar os nossos anseios. A não ser que a tutela decida tomar medidas ou que todos tenhamos uma epifania às 9 da manhã de um dia ainda por inventar, só a BAD pode dar corpo e consistência a um plano de acção e apresentá-lo ao país. Associem-se! E aos que dizem não quererem associar-se porque acham que a BAD não corresponde às expectativas que tinham (ouço isto algumas vezes), há um remédio. Chama-se eleições para os órgãos de direcção. Façam como quiserem, mas participem!