domingo, 2 de julho de 2017

A biblioteca imperfeita



Comunicação apresentada na comemoração do 100º aniversário da Biblioteca Municipal de Covilhã



Vivemos tempos difíceis para as bibliotecas. O problema não é exclusivamente nacional. Desta vez não é consequência do nosso persistente atraso civilizacional, de que tanto gostamos de nos queixar. Nada disso.

Quer nos países que nos habituámos a seguir como modelos, quer em países com um nível de desenvolvimento mais lento do que o nosso, as bibliotecas atravessam momentos difíceis e são confrontadas ciclicamente com a falta de financiamento, a consecutiva descida nas listas de prioridades dos executivos governamentais ou locais e a desvalorização do trabalho desempenhado, face à ilusória facilidade de acesso proporcionada pelas novas tecnologias.

O ambiente generalizado é de desânimo. Do Reino Unido, dos Estados Unidos ou do Canadá, mas também da nossa vizinha Espanha ou do país-irmão Brasil chegam-nos com frequência informações sobre o encerramento de bibliotecas, quer temporariamente, quer a título definitivo. Nesses momentos, incrédulos perante a aparente desvalorização do serviço de biblioteca pública, resignamo-nos condoídos pela inevitabilidade da extinção das bibliotecas e do mundo, tal como o conhecemos.

Porém, nas mesmas notícias chegam relatos de cidadãos que se recusam a aceitar o encerramento dos serviços, que se mobilizam para defender a sua biblioteca, que organizam manifestações, que se disponibilizam, em última análise, para tomar conta da biblioteca e garantir, com recurso a voluntariado ou outras soluções independentes da administração oficial, a continuidade de um recurso que sentem como seu, que os acompanhou ao longo da vida, e que querem que seja um lugar de referência e de abrigo para os seus filhos e netos.


The Guardian, 04out2016

Irish News, 27jun2016

Rio de Janeiro, 2017

Londres, 2011
E que dizer da necessidade manifestada por pessoas que, atravessando a pior fase das suas vidas, nas mais difíceis condições de sobrevivência, atormentadas pela fome, pelo frio, pelo medo, fazem nascer uma biblioteca, ainda que frágil e temporária, como frágil e temporária parece ser a sua existência naquele momento. A título de exemplo, relembro que no campo de refugiados de Calais, entre os serviços considerados como prioritários, surgiu uma biblioteca. Tal como surgiu na Síria ameaçada pelo estado islâmico, com o objectivo de salvar os livros e a civilização que eles representam, preservando-os para as gerações vindouras.
Biblioteca no Campo de Refugiados de Calais
Biblioteca subterrânea na Síria

Perante esta resposta da Comunidade que utiliza a Biblioteca e não aceita viver sem ela, que direito temos nós, bibliotecários, de lamentar a imperfeição das nossas condições de trabalho, a imperfeição dos nossos edifícios, a imperfeição dos nossos equipamentos, a imperfeição das nossas colecções, a imperfeição dos nossos dirigentes, a imperfeição dos nossos utilizadores? Nós, bibliotecários imperfeitos, temos o privilégio de trabalhar numa instituição única, que presta um serviço público inigualável e gratuito a todos os membros da comunidade. Não existe nenhum outro serviço comparável.

O pessimismo reinante, que a classe profissional tende a propagar como chama em pasto seco, é contraproducente e passa a imagem de um serviço no limiar da sobrevivência, em risco de extinção porque apenas sublinha as dificuldades, os custos, os problemas, os inconvenientes.
Perdidos no labirinto de problemas, esquecemo-nos da razão da existência da biblioteca pública, e por consequência, de tudo o resto: os bibliotecários, os edifícios, os equipamentos ou as colecções. E essa razão é a Comunidade.

É na Comunidade que reside a força da biblioteca pública, que a torna imune a todas as ameaças, incluindo o fator condicionante mais próximo e tantas vezes oscilante: o poder político. Nenhum político ponderará a hipótese de encerrar uma biblioteca que é valorizada pela sua comunidade. Nenhum político deixará de investir numa biblioteca que prova diariamente ser um recurso útil para os seus cidadãos. Nenhum político deixará de considerar prioritário um serviço acarinhado pelos seus eleitores.

Ao contrário de uma biblioteca que precisa de ser defendida, a biblioteca de que quero falar é a que nasce e cresce no seio de uma Comunidade, que lhe é útil e que, em última análise, acaba por ser o agente que a transforma, que a faz transcender-se e evoluir. A biblioteca de que quero falar é a biblioteca imperfeita, motivada pela procura constante e incessante da prestação de um serviço de qualidade comprovada, não pela certificação dos equipamentos e cumprimento das directrizes internacionais, mas pela verdadeira integração na vida da comunidade, pelo entrosamento com as instituições locais e regionais, pela forma como, progressivamente, se torna uma presença constante na vida dos seus cidadãos.

Esta biblioteca imperfeita está longe da biblioteca asséptica e modelar que os manuais de biblioteconomia nos incutiram. A biblioteca que faz parte da vida das comunidades e que estas preencherão de vida e de dinamismo não é o edifício, mas sim o serviço que lhes é prestado, à medida das suas necessidades e das suas imperfeições.

Para que isto se concretize, a biblioteca só precisa de existir e acontecer, seja num edifício premiado pelo projecto de arquitectura e equipado com mobiliário topo de gama, seja numa estante com livros, disponível no café de uma pequena aldeia do interior.

Importa agora saber que condições são necessárias para converter um equipamento, que é a biblioteca pública, num serviço enraizado na Comunidade e útil aos seus cidadãos. Na verdade, estas condições reduzem-se apenas a uma, com capacidade suficiente para fazer mover todas as outras peças da engrenagem.

E que condição é essa? É tornar-se parte da vida da comunidade e trazer as pessoas à biblioteca.

É o mais difícil de fazer, porque depois, todos conhecemos o vírus que se dissolve na circulação sanguínea e que nunca mais nos deixa sós. Onde estivermos, haverá sempre uma biblioteca para nos salvar da solidão, do medo, do desconhecido, do cansaço, da desilusão e acima de tudo, da ignorância.

Por seu lado, para a biblioteca, a pressão do público que a frequenta é a força motriz que exige uma actualização constante das colecções, a aquisição de equipamentos ou a conservação das instalações na justa medida e proporção do serviço que é prestado. O dono do café que tem a estante com livros na aldeia recôndita será inevitavelmente confrontado com a necessidade de renovar os títulos ou até de instalar uma estante maior, se quer manter a clientela que lhe sustenta o café. Da mesma forma, o presidente da câmara será inevitavelmente confrontado com as mesmas necessidades, proporcionais à sua biblioteca e à comunidade que governa, se quer manter o seu eleitorado.

Se o eleitorado não se manifesta, ou se a clientela do café é indiferente à estante com livros, algo está mal. O serviço que prestamos não é – ou deixou de ser - a resposta que as pessoas procuram. E isso tem consequências - económicas para uns, políticas para outros – mas negativas para todos, sobretudo para a comunidade que a biblioteca deveria servir.

Que pode então a biblioteca fazer para se enraizar na vida da comunidade?

1.    Comunicação e afirmação

  • A Biblioteca deve ter uma presença constante e consistente na vida quotidiana da Comunidade. A sua participação em grupos de trabalho, comissões e todo o tipo de organizações conjuntas é fundamental. A Biblioteca deve apresentar-se como parceira a todos os agentes da comunidade, tentar perceber de que forma lhes pode ser útil e o que pode ser feito em comum. A médio prazo, essas entidades tornar-se-ão agentes de divulgação da biblioteca e das suas inúmeras valências. 
  • A interacção humana é essencial. O Bibliotecário e os restantes recursos humanos da Biblioteca têm de estar permanentemente disponíveis para colaborar e participar nos eventos locais e na vida da comunidade e lembrar-se que além de cidadãos comuns, são também a face mais visível da biblioteca.
Participação da BPE em diversas actividades

  • A Biblioteca deve ter uma presença constante e consistente nas redes sociais. A comunicação aí efectuada deve ter uma linha coerente e, se for da responsabilidade de mais do que uma pessoa, deve ser orientada por um código de procedimentos e conduta. Sem perder o seu carácter institucional, a biblioteca tem que ser cordial e demonstrar proximidade, actualidade e pertinência. Tem que ser um referencial no que à credibilidade da informação diz respeito e não deve concentrar a comunicação apenas na divulgação das suas actividades. Todos os assuntos que interessam aos potenciais utilizadores interessam à Biblioteca, caso contrário ninguém se lembrará de a procurar para obter informações. Não obstante, em caso algum pode violar a privacidade ou o direito à imagem das pessoas que participam nas actividades ou frequentam os serviços que são divulgados.
Utilização das redes sociais para prestar informação útil aos utilizadores

  • Tornar a biblioteca visível passa por estratégias de multiplicação de serviços, junto dos diversos sectores da comunidade. Muitas bibliotecas já o fazem, desenvolvendo actividades junto de escolas e instituições de solidariedade social. É preciso fazer mais, estar onde as pessoas estão: nos cafés e pastelarias, nas lojas e supermercados, nos serviços de saúde e farmácias, nos transportes públicos. 
Cooperação com livraria local
Projecto Comércio com Livros - Biblioteca Municipal de Moura

Por esta altura, muitos estarão a torcer o nariz, calculando os imensos recursos necessários para pôr tudo isto em prática. Mas, na verdade, tudo pode assentar numa estratégia colaborativa com todos os agentes da comunidade.
2.    Cooperação e interacção

  • A cooperação com instituições locais que já desenvolvem, por exemplo, serviços de apoio domiciliário, pode garantir que os serviços da biblioteca são transportados por essas instituições até ao local onde os potenciais utilizadores se encontram: em casa, nas instituições de acolhimento, etc.

Projecto a implementar no Centro Histórico, a divulgar brevemente

Rede de pólos de leitura pública da BPE em 2015
Pólo da BPE na Freguesia de Canaviais
Protocolo com Município de Estremoz
Pólo de Leitura Associação É Neste País
  • A cooperação com empresas e instituições para criar núcleos de leitura significa que a biblioteca pode descentralizar-se sem custos acrescidos para qualquer uma das partes. Para a biblioteca representa um empréstimo domiciliário feito a uma instituição. Para a instituição significa uma mais-valia no serviço prestado aos seus clientes e/ou uma vantagem para os seus trabalhadores. 

    • A realização de actividades fora do espaço tradicional da Biblioteca em associação com outras entidades ou espaços públicos é, provavelmente, uma das estratégias mais utilizadas para chamar a atenção do Público, mas só tem impacto positivo se a actividade for realizada com regularidade e a presença da Biblioteca for consistentemente assinalada. Tem de ser encarada como uma embaixada da Biblioteca e não como uma actividade fortuita e acidental. 
    • A realização de actividades dentro da Biblioteca, abertas a todos os sectores da Comunidade deve igualmente obedecer a uma estrutura regular, pensada para se prolongar no tempo e fidelizar públicos.
    Comemorações do aniversário da BPE - Évora Sketchers
    Encontro mensal de jogos de tabuleiro
    Temporada anual dos Bonecos de Santo Aleixo na BPE
    Comemoração do aniversário da BPE - Visitas guiadas
    Conferências do Cenáculo (Bienal)
    A realização de actividades em cooperação com outras instituições acabará por provocar nessas instituições uma predisposição para apoiar a biblioteca e a sua missão, quer participando e contribuindo de forma directa para a própria biblioteca, quer através de iniciativas colaterais que resultam no envolvimento de toda a comunidade no processo de formação de leitores.

    Programação e divulgação da actividade do Pólo de leitura na Junta de Freguesia

    Projecto Padrinhos de Leitura - Biblioteca Municipal de Moura

    3.    Facilidade de utilização

    A biblioteca deve acolher os utilizadores que a procuram, para que estes se sintam bem-vindos.

    • Desburocratizar a inscrição. Muitas bibliotecas instituem complicados procedimentos de inscrição, com exigência de documentos comprovativos de residência. Ora, a experiência demonstra que todos estes cuidados nunca foram capazes de impedir o extravio de documentos, ou o desaparecimento de leitores que nunca mais dão sinais de vida, por muitas cópias de formulários que repousem arquivadas nos respectivos serviços administrativos. A inscrição de um leitor representa um contrato de cidadania, um compromisso assumido entre a biblioteca e o utilizador. À biblioteca é exigido que preste um serviço de qualidade, à altura das expectativas que o sistema nacional de bibliotecas públicas criou na opinião pública. Aos utilizadores é pedido o cumprimento do regulamento que lhe é apresentado no ato da inscrição, mas com a perfeita consciência de que tudo continua a depender da boa-fé e da responsabilidade de cada um. Nenhuma das obrigações usualmente criadas nas bibliotecas evita esta situação.
    Inscrição na BPE: Requer apenas o Cartão de Cidadão, que funciona como Cartão de Leitor

    • Descomplicar a utilização. A Biblioteca assume-se como a porta local de acesso à informação e ao conhecimento, mas em vez disso, são instituídos sucessivos obstáculos, proibições, imposições. O regulamento deve ser simples, claro, directo e definitivo. Não há nada de mais desencorajador do que chegar a um sítio e não saber que regras de comportamento adoptar. Por outro lado, é preciso ponderar constantemente o que é realmente imperativo e o que não passa de uma posição corporativista: “proíbe-se porque é assim”; “só pode levar 2 livros técnicos de cada vez”.

    • Despenalizar. Até hoje, ainda ninguém me conseguiu provar que a penalização – monetária ou por bloqueio proporcional à infracção – resulta num decréscimo de livros perdidos. Os utilizadores bem-intencionados e cumpridores sentem-se traídos quando, ao mínimo descuido, lhes é aplicada a coima ou penalização. Os utilizadores não cumpridores jamais devolverão um livro que entrou em incumprimento, sabendo que a sua devolução acarreta consequências negativas. Em ambos os casos, perde-se um leitor. A penalização, a existir, deve ser suficientemente desencorajadora da prevaricação mas não tão grave que desencoraje a utilização.

    • Ouvir os leitores. Ouvir as suas preferências. Ouvir as suas exigências e dar-lhes resposta. Ouvir as suas dúvidas e necessidades e dar-lhes apoio. A médio prazo serão os utilizadores quem mais irá contribuir para a definição da estratégia da biblioteca, com a sua constante demanda e com a utilização que fizerem dos seus serviços. Serão eles, igualmente, o factor de maior peso na motivação constante dos recursos humanos da biblioteca, transformados em agentes activos, úteis e participativos na vida da comunidade.


    As estratégias aqui apresentadas são meramente indicativas e poderiam ser bastante alargadas. Resultam da experiência profissional e têm demonstrado ser eficazes. Graças a elas, a Biblioteca Pública de Évora tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central na vida da comunidade, com reflexo na utilização dos serviços. Estamos ainda muito longe da plena comunidade leitora, mas o caminho percorrido faz-nos encarar o futuro com optimismo e perseverança. Acima de tudo, hoje posso dizer com propriedade que ninguém imagina a possibilidade de encerrar esta biblioteca, tão essencial à cidade como o abastecimento de água.

    Aqueduto da Água de Prata, Évora | Desenho de Filipe Almeida

    Estrela da manhã

    Numa qualquer manhã, um qualquer ser, vindo de qualquer pai, acorda e vai. Vai. Como se cumprisse um dever. Nas incógnitas mãos tran...